O
Público de hoje presenteia-nos com um curiosíssimo texto de uma docente da Faculdade de farmácia chamada Margarida Castel-Branco. É verdade, ela não tem culpa mas é inevitavel deixar o raciocínio escapar de imediato para figura como a de José Castelo Branco (reparem na mestria com que omiti o artigo definido o/a), Luisa Castel Branco e até mesmo a boa da sua filha.
(vaca).Nesta verdadeira pérola da literatura, são apresentados vários
argumentos para não celebrar o 1° aniversário do 11 de Fevereiro, data do referendo sobre a despenalização do aborto em Portugal. A minha primeira dúvida surge logo no título. Será que a
sótoura sabe de alguma coisa que nós não sabemos? Alguém estava a organizar uma festa e não avisou ninguem? Mas pela cabeça de quem é que passaria "celebrar" esta data?? E em que é que consistiria a dita celebração? Tudo a abortar ao mesmo tempo? Já estou a imaginar a corrente de emails: "Junta as tuas amigos no proximo dia 11 de Fevereiro às 21 horas e vamos todos abortar por um mundo melhor!" (No final poderia até haver uma referência aquele brilhante momento da TV portuguesa: "
Vou ao cinema, está esgotado, vou abortar!" )
Mas não, nem email, nem folhetos, nada. Não soube de nada. Mas como de qualquer das formas fiquei curiosa, continuei a ler o texto. E fiquei logo esclarecida no primeiro parágrafo. A informação é tanta que até tive de reler 3 vezes para perceber:
"
Os números, curiosamente, estão aquém do esperado: a estimativa era de 20 mil abortos por ano, mas tudo aponta para que esse número não ultrapasse os 10 mil. Mas ainda é cedo para tirar conclusões. O que é certo é que o aborto, agora legalizado, não é mais uma causa feminista."
Perceberam? Leiam lá outra vez! Ainda não perceberam a lógica? Eu também não.
A dúvida persiste:
"Afinal, praticar ou não um aborto terá as mesmas consequências?" Até fiquei com a cabeça a andar à roda com a dúvida! E toda a argumentação da sótoura para não celebrar o já referido 11 de Fevreiro assenta nas conclusões de um encontro de especialistas de várias áreas sobre "o impacto do aborto na saúde da mulher".
E a grande conclusão é que: "
Actualmente, a síndrome pós-aborto - considerada como sendo um tipo de desordem de stress pós-traumático - é internacionalmente reconhecida."
Posso estar enganada mas a depressão pós parto é reconhecida há bem mais tempo, isso quer dizer que também não devemos dar à luz? O que poderemos fazer para evitar este problema? Fazemos força para dentro quando rebentarem as águas?
Mas guardem lá os foguetes e as máscaras e as garrafas de champanhe que já estavam a preparar para as celebrações do 11 de Fevereiro, porque há mais: "
A associação do aborto induzido com o aparecimento de diversas doenças mentais - entre as quais ansiedade, depressão, irritabilidade, explosões de agressividade, incapacidade de manutenção de relações conjugais, dificuldade de relacionamento com outros filhos que vêm a seguir, comportamentos neuróticos, esquizofrenia, doença bipolar - é uma realidade para a maioria das mulheres que praticam um aborto."
Gostava de saber como é que conseguiram definir que estes sintomas estavam exclusivamente associados ao aborto, porque eu sofro do mesmo várias vezes durante o mês (ok, durante o dia) e não me parece que esteja associado com aborto nenhum. Admito que alguém algures no planeta esteja a abortar nesse preciso momento, mas...
As mesmas dúvidas surgem quando enumera os efeitos secundários da pílula abortiva: "
desconforto e dor abdominais, náuseas, cansaço e dor no peito, enquanto logo após a toma da prostaglandina começam as cólicas uterinas fortes, os espasmos (dolorosos), as náuseas e os vómitos, a diarreia, os tremores e a febre, as tonturas e as crises de hipotensão. Numa segunda fase, os efeitos secundários podem ser levados a tal extremo que se convertem em complicações. (...)" Tem a certeza que leu a bula certa? É que o medicamento que tomei por causa da úlcera do estômago tinha os mesmos efeitos...
Não quero de maneira nenhuma comparar um aborto a uma dor de barriga, mas este tipo de argumentação básica (a que assistimos ao longo de todo o período de debate/reflexão que antecedeu o referendo) não leva ninguém a lado nenhum. Argumentos como o da Lídia Jorge na onda do "o
corpo é meu, eu é que decido o que faço com ele" muito menos!
Se não têm nada para dizer não digam. Mais facilmente vos agradecem do que por argumentações destas.